Rui Falcão fala em integrar megalópole
Por Júlio Gardesani
Deputado eleito defende macrorregião formada por ABCD, Grande S. Paulo, Campinas, S. José dos Campos e Santos
Integrar somente o ABCD é pouco. Para o deputado estadual eleito e coordenador de comunicação da campanha vitoriosa de Dilma Rousseff à presidência, Rui Falcão (PT), a integração deve ser maior, muito mais ampla: “A Grande São Paulo, que incorpora o ABCD, precisa ser integrada às regiões metropolitanas de Campinas e da Baixada Santista”, afirma Falcão. Da fusão dessas três regiões, que formam uma megalópole, sugere o deputado, um novo ente federativo, poderia ser constituído, resolvendo problemas comuns, como transporte e destinação de resíduos sólidos. Em entrevista exclusiva ao ABCD MAIOR, Rui Falcão também aborda a questão da comunicação no país e já debate as próximas eleições.
ABCD MAIOR – As sete cidades do ABCD compreendem parte importante da região Metropolitana de São Paulo. Diante disso, o senhor ainda acredita que exista possibilidade de integração regional apenas no ABCD, ou esse debate depende da participação da Capital?
RUI FALCÃO – Acredito que existe um atraso, não só em São Paulo, mas em todo o Brasil na questão metropolitana e isso pode ser revisto a partir das metas de planejamento do governo Lula com o PAC. O governador eleito já anunciou a disposição de criar a secretaria metropolitana. Mas nós temos hoje, além da Grande São Paulo, que incorpora o ABCD, as regiões metropolitanas de Campinas e da Baixada Santista. Se traçarmos um círculo que se estenda até São José dos Campos de um lado, e São Paulo, Campinas e a Baixada, nós teremos uma megalópole que poderia se constituir com um novo ente federativo. Isso já existe em vários países, como na Alemanha e no Canadá. Seria um novo ente econômico, com regulamento próprio, com planejamento integrado e orçamento próprio, além de uma Câmara Metropolitana. Isso daria uma sinergia para temas que não têm solução individual, como o transporte integrado e a destinação de resíduos sólidos.
ABCD MAIOR – A experiência do Consórcio Intermunicipal pode ser um exemplo para isso?
FALCÃO – O Consórcio é uma experiência muito tímida. Um pequeno avanço, mas que não resolve. Nada disso funciona se não tivermos orçamento definido e nem poderes locais para definir prioridades. No final, sobra apenas a política do “pires na mão” ou do deputado funcionando como despachante de emendas.
ABCD MAIOR – Já existem conversas sobre a participação do PT na eleição para o governo em 2014. Como andam estes debates? Além disso, como reforçar ainda mais o ABCD, já que a Dilma acabou perdendo a eleição no segundo turno em Santo André?
FALCÃO – O partido está iniciando os debates e vamos nos reunir já neste final de semana. Eu acredito que o PT precisa aprofundar os conhecimentos e as pendências não só da “velha” classe média, como da nova classe média, no ABCD e em parte da Capital. Fizemos nestas eleições uma grande aliança que nos trouxe setores da classe média, mas precisamos aprimorar o debate ideológico e político. Por exemplo: como fazer o debate da questão tributária nesses setores? Como mostrar que existe um retorno maior do que a contribuição e que os impostos servem para diminuir as desigualdades regionais? São estes debates que iremos trabalhar.
ABCD MAIOR – O PT aumentou o número de cadeiras na Assembleia Legislativa e chegou a 24 deputados. Como isso pode auxiliar o trabalho de oposição à gestão tucana?
FALCÃO – Além de nossos 24 deputados temos outros dois do PC do B, que se define como oposição, e um do Psol, além do Major Olímpio, do PDT. Mas ainda iremos tentar dialogar com outros partidos. Ou seja, ainda não sabemos como será o comportamento do PMDB, do PDT, do PSB e do PR, pois todos eles participaram ativamente do apoio a Dilma e alguns do apoio ao Mercadante. Nossa expectativa é que possamos ter um diálogo e que não haja um alinhamento automático destes partidos à base do governo. Hoje, na oposição temos 28 deputados, para conseguirmos uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) precisamos de 32. Ou seja, aumentamos nossas chances.
ABCD MAIOR – Sobre o preço dos pedágios, este tema também serviu de munição durante a campanha. Como o PT e a oposição pretendem trabalhar este tema pelos próximos quatro anos?
FALCÃO - O próprio Alckmin tem batido na tecla de rever a taxa interna de retorno dos pedágios, para os deixar mais compatíveis com os federais. Além disso, não podemos ter a instalação de mais praças de pedágios ou cobranças na cidade, como ocorre em Diadema. Isso precisa ser revisto, pois o pedágio é o pior imposto que nós temos. Ele é disfarçado e afeta toda a população. Gostaríamos que houvesse uma revisão. Além disso, o pedagiamento do trecho Sul do Rodoanel nem deveria ter sido aplicado.
ABCD MAIOR – O senhor coordenou a campanha de comunicação da presidente eleita Dilma Rousseff (PT). A maioria dos petistas avalia que a campanha foi bem sucedida, mas alguns ainda acham que, principalmente na internet, ela pode ter deixado a desejar. Como o senhor avalia esse trabalho?
FALCÃO – Bem sucedida. Definimos três nichos de campanha. Primeiramente comparamos os dois projetos em disputa, em segundo tornamos a candidata conhecida pela sua biografia e qualidades e em terceiro a ideia da continuidade com avanço, sob o slogan “Para o Brasil Seguir Mudando”. Estes três eixos se traduziram em peças de TV, nos materiais impressos e no discurso de campanha que ancorou os debates na TV. Já a questão da internet ainda tem um peso pequeno apesar de ter sido supervalorizada nos debates. Os grandes veículos de comunicação no Brasil ainda são o rádio e a TV. Nós não precisamos fazer a chamada campanha suja na internet. Do começo ao fim não estimulamos blogs sujos, ao contrário do que disseram. O site da campanha passou informação para todo o país e ainda criamos uma página para desmentir os boatos. Além disso, o balanço que uma entidade fez da campanha na internet mostra que nós tivemos mais fatos positivos no Twitter e no Orkut do que o Serra. Na verdade, a campanha do PSDB assumiu uma característica golpista. Essa ideia de que uma maioria governista eleita prejudicaria a democracia, ou a questão da censura à imprensa, traz na base o seguinte: a vitória de Dilma é ilegítima e isso enseja a possibilidade de impeachment. Ou seja, o renascimento da UDN.
ABCD MAIOR – Mas a grande imprensa encampou essa campanha. Como o PT avaliou o trabalho da grande imprensa e o que senhor acha da regulamentação da comunicação no Brasil.
FALCÃO – A grande imprensa de forma majoritária apoiou a campanha do Serra. O Globo foi o que mais se destacou nesse apoio. É preciso notar que a Dilma teve o apoio de todos os veículos alternativos e da Carta Capital expressamente. Mas o peso da grande mídia ainda é maior do que dessas publicações. Não se pode mostrar surpresa com esse elemento. Já era previsível este trabalho da grande imprensa e no nosso planejamento de campanha não contamos com isso. Talvez não se esperasse que esse apoio fosse tão ostensivo e que houvesse tamanha manipulação. Já sobre a regulação nada tem a ver com restrição de liberdade de imprensa ou do pensamento. Precisamos, sim, criar normas que restrinjam o oligopólio da grande imprensa e que nessa fase de convergência de mídias exista a possibilidade da manifestação de mídias alternativas. É preciso fazer cumprir a Constituição.
(Do ABCD Maior em 28/11.)