Irã: não é que o Brasil tinha razão?
Por: Flavio Aguiar
Agora quem está dizendo isso não sou eu. É Anne Marie Slaughter, professora de CIência Política e Relações Internacionais da Universidade de Princepton, e ex-diretora de Planejamento Político de Departamento de Estados dos Estados Unidos, de 2009 a 2011, por indicação da Secretária de Estado Hillary Clinton.
Foi durante sua gestão no Departamento de Estado que aconteceu a famosa história do acordo entre Brasil, Turquia e Irã a respeito do programa nuclear deste último país, iniciativa tão bombardeada na nossa mídia pró-Guerra Fria e descrita como “infantil”, “megalomaníaca”, etc.
A professora argumenta que a posição dos Estados Unidos de então bombardear o acordo era baseada na ideia de que ele não deteria o programa nuclear do Irã. O acordo previa a transferência de 1200 kg de urânio pouco enriquecido (LEU, na sigla em inglês para “low-enriched uranium) do Irã para a Turquia, como um “depósito em custódia”, em troca de 1200 kg de urânio não enriquecido, o que permitiria que o Irã continuasse seu programa de uso do minério para fins médicos.
Porém hoje a ex-diretora e atual (novamente) professora lamenta que essa decisão tenha sido tomada por Washington, por duas razões. A primeira, óbvia, é que o boicote do acordo e sua condenação (pela secretária Clinton) como irrelevante, ingênuo, etc, não impediu o desenvolvimento do programa. Além disso, outras iniciativas, como a de infiltrar um virus no programa computacional do Irã (fabricado pelo Mossad israelense), não impediram a continuidade do programa (a professora não cita, mas aqui se deveria mencionar também o assassinato de cientistas iranianos ligados a esse programa), embora o retardassem. A segunda é que qualquer outra opção alternativa à via diplomática é pior, e com aquela opção, Washington retardou, isso sim, o progresso dessa via.
Então a professora se volta para a idéia de como retomar a iniciativa política internacional. Seria cabível que os Estados Unidos fizessem isso? Claro que não. Além de o Irã receber qualquer iniciativa norte-americana com desconfiança, há o problema de que o governo Obama está na mira eleitoral, acossado pelos republicanos, que logo passariam a atacar uma iniciativa dessas como “fraqueza”, “abandono de Israel” e quejandos argumentos.
Alguém mais do Conselho de Segurança? China? Rússia? Impensável. Isso provocaria uma tempestade em torno do assunto, por causa da reação em Washington. França? Reino Unido? Também impensável. São países comprometidos por sua postura no caso líbio. Podemos acrescentar Alemanha? Também impensável. Haveria uma tempestade interna no país europeu por causa do virtual confronto com Israel, além de uma tempestade externa, na União Europeia, que estuda tomar medidas mais duras ainda contra o Irã.
A Turquia? Complicado, nesse momento em que o país está em linha de confronto com um aliado de Teerã, o governo de Bashar al-Assad, de Damasco.
Então quem resta? Ora, gente, diz a professora, o Brasil! Por que? Primeiro porque o Brasil não tem nada a perder. Segundo porque a presidenta Dilma vai a Washington em março e poderia discutir o assunto com Obama e, segundo a professora, as relações entre os dois são ótimas. Terceiro, porque o Brasil tem credibilidade junto a Teerã, e credibilidade internacional porque é um país que flertou com a hipótese do armamento nuclear e abandonou-a. Deveria então, segundo ela, o governo norte-americano tomar a iniciativa de encorajar Brasília a retomar as conversações com Teerã.
Tudo aquilo que a nossa direita, perdida em seu anacronismo, não quer ouvir falar.